Há dias assim, em que o imprivisível decide voltar-nos a sua
face e desenferrujar a crueldade, em que a esperança submissa e infundável
começa a ganhar asas para voar para longe de nós, em que as forças falham-nos
sem aviso prévio e a devida justificação antecipada, em que a sensação de
impotência apodera-se do nosso consciente e despedaça-nos o peito. E esses dias
sentem-se mais quando a indesejável partida acontece, quando o relógio se
adianta e antecipa o bilhete de ida sem reserva para voltar, sem voos marcados
nem viagens retornadas, apenas uma ida, inesperada e preputente. E
inesperadamente, automaticamente, sem saber bem a razão, sem ter tempo ainda de
assimilar o sucedido, as lágrimas começam a cair, em rotinas sucessivas e
sufocantes, cortantes e agressivas, símbolo do que mais temia. E caiem, e param. E caiem, e param. E voltam a cair, e desta
vez não conseguem parar, e o desespero começa a surgir, o tempo começa a passar
e a sanidade mental a desmoronar. E que fazer, perguntamos nós. Um nós já
totalmente levado à loucura, um nós que sonha durante a noite que o passado
continua vivo, acorda a chorar, e volta a sonhar com o mesmo. Todas as noites. Todos
os dias. Sem excepção. Simplesmente porque há determinadas coisas que o nosso peito
não aceita à primeira, nem à segunda, nem mesmo à terceira, que dizem que é de
vez. E vai acumulando, vai acumulando as lágrimas e manchando os lençóis, vai
acumulando as saudades e sentindo-se a desesperar cada vez mais, vai acumulando
as irracionais tentativas de busca e tomando consciência de que foi o fim. E isso,
isso é o que mais crava feridas no peito. Ainda se me tivessem dito que apenas
foste viajar e que simplesmente não sabias a data de regresso, ainda era menos
doloroso, pois sabia que o teu coração continuava a bater, que os teus pulmões
continuavam a contrair-se, que o teu olhar continuava a cintilar e a tua boca a
mexer, que a tua voz continuava audível. Mas não, a realidade é outra, bem mais
dura, bem mais cruel, bem mais segura de si mesma, bem mais impregnada no
sofrimento alheio. E depois? O que vem a seguir? Uma vida totalmente alterada e
maquinada. Um vida cheia de surrealismo e desconfianças, cheia de desespero e de
falta de vontade. Uma vida que foi desmanchada e construída de novo, com outras
pessoas, outros locais, outras maneiras de ser, de agir e de encarar tudo. Esqueceram-se
apenas de levarem também as memórias, para que não doessem tanto. E dizem-nos
eles que apenas temos de aceitar e seguir em frente porque a vida não pára. E
será que ainda não temos consciência de que a vida não pára, porra? Se parasse tinhas
ficado comigo, se parasse ela tinha esperado para que fossemos ambas, se parasse tinhas resistido às pisadas que a vida deu sobre ti, se parasse tinhas
continuado a manter o ritmo cardíaco, se parasse tinhas continuado com o teu olhar poisado
no meu e a dizer "filhota, a mamã ama-te muito".
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