Sim, às vezes temos aquela sensação estranha de que não pertencemos a lugar nenhum. De que estamos a ser apenas uma ferramenta para um outro alguém tentar ingloriamente apagar o seu passado. Mas por vezes, essa tentativa é tão pouco sentida que nos vai desfazendo a união dos ventrículos às aurículas, da mesma forma que uma borracha se vai desfazendo quando tenta apagar riscos demasiado marcados e impossibilitados de ser corrigidos. Mas ela ainda aguenta por uns tempos, porque possui sempre a esperança que um dia o seu trabalho conclua e possa finalmente permanecer apenas com a sua promessa de felicidade. O pior é quando esse dia não está marcado, quando o algarismo demasiado grande não se enquadra em nenhuma data pré-estabelecida, e se tem ainda que esperar pela invenção de um novo calendário, um calendário que se enquadre em todos os caprichos do coração e nos devaneios da razão. Calendário esse, que ainda não foi aprovado e que, portanto, faz com que as juras de amor vão sempre lá parar: a um calendário inexistente, que paira apenas na imaginação humana e que se intitula, para os corações que amam, um calendário comum, que se pode comprar em qualquer esquina. O maior inimigo do coração é o passado, é o passado ainda tão aceso que alguém tenta sempre disfarçar a chama com umas quantas mentiras reconfortantes e umas promessas inacabadas. De sonhos está o coração cheio, mas de realidade tem demasiada carência. E isso deve-se apenas ao facto de o amor cegar, cegar tão friamente que nos impede de observar pormenorizadamente a realidade que nos envolve os braços, permite apenas que sejamos sempre perceptíveis às promessas ditas e deixadas por dizer que saem da boca de alguém que sabemos que tem o poder para nos quebrar o coração, mas que continuamos mesmo assim a acreditar que nunca o irá fazer. Nestas situações, o passado não nos auxilia, o nosso passado, que nos deveria servir de molde ao sofrimento por que já passamos, é simplesmente posto de parte, esquecido, e é feito acreditar que desta vez vai ser diferente, como o foi de todas as outras. E pergunto-me agora: será que somos burros? Não, acho que não. Somos apenas apaixonados, somos apenas emocionais, somos apenas uns quantos românticos que ainda acreditam no amor eterno e o elevam acima de qualquer outro objectivo. E nós, sonhadores, acreditamos apenas que isto é a preparação, que todas estas tentativas inglórias de o encontrar e que nos despedaçaram o peito são necessárias, esquecemo-nos porém que muitas das vezes andamos nessa busca constante até ao fim dos nossos dias, enquanto outros desistem mais cedo de o fazer e vão, ao longo do tempo, contribuindo para o nosso fracasso. O ser humano tem de aprender uma grande lição: deixar o passado ir embora! Deixemos que ele regresse ao seu lugar, não impeçamos a lei natural dos acontecimentos. Deixemo-nos de acreditar em contos de fadas que são, no fundo, apenas a tradução de sonhos irrealizáveis. Deixemo-nos de fantasias, elas não se tornam reais, por mais que o tempo passe. Deixemos que a dor que nos fizeram sentir se aloje em algo que não regressa, que se mantém firme na ideia de deixar o tempo passar, de deixar o tempo avançar para que nos possa trazer um pouco de conforto. A razão quere-lo, apesar de o coração estar sistematicamente a tentar remar contra uma maré indominável. Deixemos o passado partir, e deixemos o presente apoderar-se das nossas vidas e trazer com ele um pouco de felicidade que cubra o vazio que o passado cravou no nosso peito. Um dia, também ele vai ser passado, mas até lá, deixemos que o presente faça o seu trabalho, faça o trabalho de nos fazer seguir em frente, de nos limpar o espírito e limar as arestas dos sentimentos. Até lá, deixemos que o nosso coração possa voltar a viver, possa voltar a sentir e a sorrir por isso, e não apenas a chorar. Até lá, deixemo-nos ser felizes, nós merecemo-lo. E quem sabe se, desta vez, o presente não se torna passado e se prolonga num futuro promissor e reconfortante? Pode ser desta vez, como pode também ter de ser adiada por mais um tempo. Mas continuemos a tentar, continuemos a deixar de querer viver amargurados com algo que neste momento não tem força suficiente para nos esboçar um sorriso no rosto. E se assim é, não vale a pena. Não vale a pena a insistência em algo que, por mais que queiramos, não volta, não volta no seu estado mais absoluto e impulsionador de felicidade. Mas também, não forcemos as coisas, não forcemos o nosso coração a sentir, pois ele é demasiado teimoso e pode-nos pregar umas partidas indesejáveis. Deixemos apenas que o tempo nos sussurre ao ouvido quando já estamos preparados a deixar outro alguém entrar por uma porta, ou até mesmo por uma janela, mas que entre e se mantenha ao nosso lado, por tempo ainda indeterminado. É se calhar a única forma de acalmar os remendos que se querem descoser, é talvez a única forma de encontrar o sorriso que abandonou o nosso rosto deixando lá uma réplica impostora, é talvez a única forma de perceber a razão porque temos os olhos virados para a frente – de certeza que não é para continuarmos a seguir as pegadas que demoram a ser esbatidas. É apenas para olhar no horizonte e seguir, sem voltar a olhar para as nossas pegadas deformadas. Assim como quando caminhamos no sentido literal, não deixamos que o nosso olhar esteja sempre impregnado no caminho por onde já passamos, porque isso nos faria imensas vezes esbarrar contra obstáculos ou até mesmo contra a felicidade e nem a reconhecermos. Deixemos o nosso coração também aprender a caminhar com o olhar direito e não sempre retorcido, deixemos o nosso coração sentir o que o caminho à nossa frente nos oferece, e esquecer as páginas mal narradas que nos tiraram das mãos.
One person, one life, one love ♥
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
memories .
A memória não tem limite. Uma pessoa não pode dizer “não me vou lembrar disso, tenho a memória cheia”. A memória não tem espaço limitado, o seu conteúdo depende do impacto que determinados acontecimentos tiveram nas nossas vidas. A memória expande-se, na mesma proporção em que os sentimentos a acompanham. Quanto mais sentimos, mais nos lembramos. Por vezes de pormenores demasiado insignificantes que nem percebemos bem a razão de permanecerem tão vivos na nossa mente, mas é a partir desses pormenores que os sentimentos crescem e, por isso, se torna impossível esquecermos as origens da aceleração do nosso batimento cardíaco. Temos tendência para arrumar a um canto as razões das nossas lágrimas, deixá-las a apanhar pó, sem nos lembrarmos delas no nosso dia-a-dia, mas quando os indícios das mesmas nos reaparecem no caminho, elas regressam, mais fracas, ténues, mas vivas, sempre vivas. E com os sentimentos é a mesma coisa. Eles podem até atenuar, passarem para segundo, terceiro, (…), milésimo plano, mas uma vez amada uma pessoa, essa experiência permanecerá em nós, algures escondido por entre a vasta gama de veias e artérias que nos percorrem o corpo. Apesar de algumas avassaladoras, as memórias são necessárias. Nós somos feitos de memórias, são elas que moldam a nossa personalidade, são elas que nos ajudam a escolher o melhor caminho, são elas que nos levam, quando arrumadas na devida altura, a seguir em frente, a contornar os erros para não os voltarmos a repetir, mas mais importante: são elas que nos mantém vivos! São a maior riqueza que o ser humano pode possuir: memórias, uma vasta e variada gama, de todas as formas, tamanhos, sentidos, e intensidades, mas tê-las, e não as tentar apagar, porque todas elas estão interligadas e fazem parte de um ficheiro demasiado grande para se conseguir eliminar na totalidade. Elas estão entranhadas em demasiados espaços do nosso corpo para nos conseguirmos desgarrar delas. Memórias são sempre memórias, e, quando ultrapassadas, a sua lembrança apenas nos coloca um sorriso no rosto, porque todas as partículas do nosso passado contribuem para a nossa visão melhorada sobre o mundo. E por isso, eu não quero apagar as minhas memórias, mesmo aquelas que ainda doem, mesmo aquelas que muitas vezes reaparecem sobre a forma de gotas grossas e salgadas e soluços incontroláveis, porque até mesmo essas me impulsionam a seguir adiante, me fazem lembrar a cada segundo de que é que somos feitos, e me fazem ter assente a ideia da efemeridade da vida, e que num suspiro pode deixar tudo de fazer sentido. São elas que me fazem ter a necessidade de olhar em frente evitando regressar com os olhos ao que se coloca atrás dos meus passos, e sim, são elas que me mantém viva, que me continuam a ensinar como manter o ritmo cardíaco, a pulsação estável e a respiração controlada, de todas as vezes que tenho a alucinação de me querer esquecer de como o continuar a fazer.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Há dias assim, em que o imprivisível decide voltar-nos a sua
face e desenferrujar a crueldade, em que a esperança submissa e infundável
começa a ganhar asas para voar para longe de nós, em que as forças falham-nos
sem aviso prévio e a devida justificação antecipada, em que a sensação de
impotência apodera-se do nosso consciente e despedaça-nos o peito. E esses dias
sentem-se mais quando a indesejável partida acontece, quando o relógio se
adianta e antecipa o bilhete de ida sem reserva para voltar, sem voos marcados
nem viagens retornadas, apenas uma ida, inesperada e preputente. E
inesperadamente, automaticamente, sem saber bem a razão, sem ter tempo ainda de
assimilar o sucedido, as lágrimas começam a cair, em rotinas sucessivas e
sufocantes, cortantes e agressivas, símbolo do que mais temia. E caiem, e param. E caiem, e param. E voltam a cair, e desta
vez não conseguem parar, e o desespero começa a surgir, o tempo começa a passar
e a sanidade mental a desmoronar. E que fazer, perguntamos nós. Um nós já
totalmente levado à loucura, um nós que sonha durante a noite que o passado
continua vivo, acorda a chorar, e volta a sonhar com o mesmo. Todas as noites. Todos
os dias. Sem excepção. Simplesmente porque há determinadas coisas que o nosso peito
não aceita à primeira, nem à segunda, nem mesmo à terceira, que dizem que é de
vez. E vai acumulando, vai acumulando as lágrimas e manchando os lençóis, vai
acumulando as saudades e sentindo-se a desesperar cada vez mais, vai acumulando
as irracionais tentativas de busca e tomando consciência de que foi o fim. E isso,
isso é o que mais crava feridas no peito. Ainda se me tivessem dito que apenas
foste viajar e que simplesmente não sabias a data de regresso, ainda era menos
doloroso, pois sabia que o teu coração continuava a bater, que os teus pulmões
continuavam a contrair-se, que o teu olhar continuava a cintilar e a tua boca a
mexer, que a tua voz continuava audível. Mas não, a realidade é outra, bem mais
dura, bem mais cruel, bem mais segura de si mesma, bem mais impregnada no
sofrimento alheio. E depois? O que vem a seguir? Uma vida totalmente alterada e
maquinada. Um vida cheia de surrealismo e desconfianças, cheia de desespero e de
falta de vontade. Uma vida que foi desmanchada e construída de novo, com outras
pessoas, outros locais, outras maneiras de ser, de agir e de encarar tudo. Esqueceram-se
apenas de levarem também as memórias, para que não doessem tanto. E dizem-nos
eles que apenas temos de aceitar e seguir em frente porque a vida não pára. E
será que ainda não temos consciência de que a vida não pára, porra? Se parasse tinhas
ficado comigo, se parasse ela tinha esperado para que fossemos ambas, se parasse tinhas resistido às pisadas que a vida deu sobre ti, se parasse tinhas
continuado a manter o ritmo cardíaco, se parasse tinhas continuado com o teu olhar poisado
no meu e a dizer "filhota, a mamã ama-te muito".
quarta-feira, 27 de julho de 2011
A liberdade absoluta é o meu sonho!
A vida é como uma montanha-russa, com pontos altos e baixos cuja distância entre cada um é demasiado pequena para ser sentida, mas por mais voltas e reviravoltas que dê, regressa sempre ao mesmo sítio. Numa eterna e sufocante rotina citadina que nos preenche os horizontes. Sempre os mesmos horários, e os mesmos hábitos, e os mesmos compromissos, e as mesmas regras, e as mesmas frases feitas, e as mesmas paisagens, a absorverem-nos a liberdade e a esperança do inesperado, porque até esse pode ser medido e previsto. São rotinas e mais rotinas que se amontoam e tornam a vida humana monótona e apressada, vidas que se desenrolam em cidades stressadas e intriguistas, oportunas e cobardes, calculistas e materialistas. Vidas robóticas e austeras que habitam em cidades compenetradas no lucro e que flamejam a liberdade da consciência humana com as suas rotinas opressoras e imparáveis. Tornam a liberdade de escolha uma miragem, por existirem compromissos inadiáveis que podem comprometer a sobrevivência da espécie. Esta harmonia repetitiva sufoca-me as ideias, deixa que paire em mim um descontentamento latente e opressor, um descontentamento perante a igualdade de tudo e deste ciclo vicioso que é viver na igualdade do nosso planeta, um descontentamento que não me permite sentir e apreciar com o devido valor a magia e a perfeição da natureza que me envolve o espírito. E o mais triste é que esta rotina, esta monotonia qualificada tornam a liberdade uma ilusão! Tornam a razão de existência humana em algo invisível e irreal, em algo que não se consegue viver no verdadeiro sentido da palavra, algo que é aparente e que se manifesta sempre com inúmeros e incontáveis condicionalismos por de trás dela. É ilusória e insana, e isso magoa a dignidade, magoa os sonhos perfeccionistas e inacabáveis, magoa o espírito aventureiro que o ser humano esconde por detrás de uma máscara de responsabilidade. Era mais seguro e humano se todos pudéssemos variar e mudar radicalmente tudo o que nos rodeia, do dia para a noite, habituarmo-nos a essa novidade contagiante e quando estivéssemos cansados de a viver voltar a mudar, e a mudar, e a mudar, e a mudar até nos escassearem as ideias, até ao limite em que a nossa imaginação nos levasse. E no fim partir, com a forte e reconfortante certeza que vivemos tudo o que tínhamos para viver, que aproveitamos todas as oportunidades de mudar e que não deixamos nada por dizer nem por fazer. Se todos nós o pudéssemos fazer, com certeza seriamos mais felizes e seguros de nós mesmos, mas isto são desejos que ainda não temos capacidade para realizar, quem sabe um dia.
terça-feira, 19 de julho de 2011
ventos que não sopram de volta !
Enquanto o mar resvala nas rochas da praia e as desgasta pela mais incrédula realidade, o vento regressa à praia e traz com ele todas as memórias e recordações, todos os desatinos de um olhar que vive impregnado num sentimento que se tornou monótono, bombeado para todo o corpo por um órgão que vive constantemente com a vida por um fio e com remendos que ao primeiro vendaval rebentarão. Vento esse que faz desenrolar e intensificar sentimentos controversos e baralhados, que se encontram fora do contexto. São letras codificadas numa realidade adversa, enigmas por desvendar e chaves sem fechadura, preceitos e conceitos que demoram a ser esquecidos, caminhares paralelos e olhares desencontrados, cantigas e romances de quem não sente o que diz. É caruma a arder que se amontoa e faz doer. São bonitas histórias que não se desenrolaram no tempo, mistérios que o mundo não é capaz de revelar, segredos por desvendar e finais por desenhar. É a liberdade ao rubro aprisionada pelo mais controverso sentimento. São falas presas e asfixiadas no pulmão da vida, sons sem sentido e cheiros sem origem, olhares acesos e passos esquecidos rumo ao precipício. É um relógio sem horas e horários sem compromissos. São dois corpos sem fala com pensamentos fervilhantes a correr-lhes no sangue. São lágrimas secas e silenciosas e partidas definitivas, são saudades sem braços mas que apertam a dor, rios sem caudal e verões sem sol, problemas sem soluções e finais fastidiosos e cansativos.
São sentimentos e emoções que jamais poderão ser retratados!
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